Após tantos anos, por uma arte do destino
Vi-me retornando à casa das paredes silenciosas.
Vi-me trilhando antigos caminhos, enxergando pegadas conhecidas naquele chão...
E uma porta foi se abrindo, revelando-me o mesmo salão.
Tudo em volta parecia que fora pintado em sépia.
E percebi que, apesar das mudanças que estes anos trouxeram,
as paredes continuavam iguais, repletas de quadros imaginários
da minha fraqueza e loucura.
Meu museu, meu cemitério.
Paredes que agora falam somente comigo, todas ao mesmo tempo
a me relembrar dos meus dias... trechos empoeirados de mim.
Vozes que hoje nada mais dizem, rostos que o tempo mofou.
Respirei aquele passado, no aposento esquecido.
E mais adiante encontrei os velhos abraços
e sorrisos cansados, perdidos em olhos vazios.
Por horas desfiei minhas lembranças
sem dores, sem sofrimentos
somente com apatia, diante da imagem desfocada
de um tornado que há muito varreu pra longe minha alma.
Hoje, naquele mausoléu de risadas e suspiros, nada mais é real.
Só meu fantasma ainda vive ali, preso para sempre no ontem,
nos retratos desbotados de um pedaço da minha vida
Nos vidros do andar de cima
ficaram impressas as palmas das minhas mãos
e os sonhos que outrora eu tive,
antes que se perdessem um a um
carregados pelas asas da desesperança.
Tranco, ao sair, aquelas inúteis maçanetas
que um dia foram abertas por mãos erradas.
Olhei minhas sombras e disse adeus novamente...
Ao sair, pensei: até nunca mais.