sábado, 2 de junho de 2012

Vertigem


Estou perdendo o prumo
O que me resta?
Já não caminho com firmeza
o solo não me sustenta
Cedo demais chegou o tempo
em que me falham os passos
E fico triste...
Quero andar, mas tudo gira
Não são pedras
que me torturam os pés,
mas nuvens estendidas
pelo chão
Não posso ir mais longe
ver o que há por ali
Não consigo me erguer
sem o medo de cair
e já soma-se a vertigem
às dores e às dúvidas
Tudo hoje me assusta
O mundo derrete-se
e despenca em espiral
o vazio me abraça
e meu corpo flutua no caos.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Juízo


O perfume da tempestade
bate à porta
abriga-te com cuidado
o martírio não é teu.
Lá fora o perigo
procura o seu dono
relâmpagos ferozes
retalham entranhas
sem piedade.
Setas desorientadas
caem do céu
fincando-se ao solo
como bandeiras
da morte.
Os punhos do vento
açoitam os mares,
a vida solta um grito.
Tudo é frágil
diante da tormenta.
Aquieta-te, pois, e espera.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Sépia


Após tantos anos, por uma arte do destino
Vi-me retornando à casa das paredes silenciosas.
Vi-me trilhando antigos caminhos, enxergando pegadas conhecidas naquele chão...
E uma porta foi se abrindo, revelando-me o mesmo salão.

Tudo em volta parecia que fora pintado em sépia.
E percebi que, apesar das mudanças que estes anos trouxeram, 
as paredes continuavam iguais, repletas de quadros imaginários
da minha fraqueza e loucura.
Meu museu, meu cemitério.

Paredes que agora falam somente comigo, todas ao mesmo tempo
a me relembrar dos meus dias... trechos empoeirados de mim.
Vozes que hoje nada mais dizem, rostos que o tempo mofou.

Respirei aquele passado, no aposento esquecido.
E mais adiante encontrei os velhos abraços
e sorrisos cansados, perdidos em olhos vazios.

Por horas desfiei minhas lembranças
sem dores, sem sofrimentos
somente com apatia, diante da imagem desfocada
de um tornado que há muito varreu pra longe minha alma.

Hoje, naquele mausoléu de risadas e suspiros, nada mais é real.
Só meu fantasma ainda vive ali, preso para sempre no ontem,
nos retratos desbotados de um pedaço da minha vida

Nos vidros do andar de cima 
ficaram impressas as palmas das minhas mãos
e os sonhos que outrora eu tive,
antes que se perdessem um a um 
carregados pelas asas da desesperança.

Tranco, ao sair, aquelas inúteis maçanetas 
que um dia foram abertas por mãos erradas.
Olhei minhas sombras e disse adeus novamente... 
Ao sair, pensei: até nunca mais.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Doce

Trago dentro do peito
toda a esperança
pra sair cantando
mundo afora,
a plenos pulmões

E agradecer as oportunidades,
e abraçar as pessoas
em meio a tantas paisagens

Como é rica esta vida
e única...
É um pulo do telhado,
um voo livre...
Não vale a pena
desperdiçá-la com lamentos.

E cada dia tem sua surpresa
tem o seu sabor.
E assim vai sendo,
acontecendo...
Até o fim.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Laços


Imagem: Getty Images

Onde encontro o fio que me prendia a ti?
Sei que no caminho eu o deixei cair por entre os dedos
E agora... Estás comigo, ainda ao meu lado, mas não te reconheço
Tudo o que nos unia: palavras, pensamentos... Perdeu-se.
Por que soltei nosso laço?
Sim, eu sei.
Tu não soltaste o teu.
Todos os dias me mostras o nó forte amarrado à tua mão esquerda.
Talvez, por isso, nunca parti.

Pessoas parecem-se com as pipas que voam alto pelos ceus
E se não houver alguém no chão, segurando-lhes a ponta da linha
O vento as levará para muito longe.
E quando as resgatamos, elas não são mais as mesmas

As pipas que deixamos cair por descuido
Perdem a beleza e o vigor das que dançam pelo ar
E então... as imagens dos antigos vôos nos encantam
Rimos sozinhos, nos lembrando das velhas histórias
Enquanto compartilhamos o silêncio e as lacunas do presente
Revivemos, mentalmente, as frases, gestos e encontros
Olhando, apaticamente, o rosto que dorme ao nosso lado
O ontem nos parece tão limpo, tão claro...
E o futuro tão incerto.
Quem és tu, a quem tanto amei?
Onde encontro o fio que me prendia a ti?

sábado, 10 de março de 2012

Recém-nascida

Deve ser assim que se nasce...

Quando, de repente, o aconchego e o calor
são arrebatados, tomados...
Num solavanco, vem a claridade batendo em cheio nos olhos
e no instante seguinte, um tapa estalando pelas costas.
E, então, se é colocado de cabeça para baixo
despido, com frio, com medo...

Deve ser assim...
A sensação de não saber o que falar
(para quem falar?)
E o choro já brotando pela garganta.
A fome doi sem que se saiba direito o que ela é.
Desamparo, deslocamento, solidão...

Quem nasce precisa de proteção e colo,
mas, às vezes, já se nasce órfão.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Ophelia

Benditas águas, que a tudo purificam, levem para longe o que possa ter restado de mim. Águas serenas transformem em bênçãos os dias que virão.

Que todas as tuas gotas possam tornar-se ondas silenciosas, cessando os turbilhões que outrora ameaçavam arrebatar minha terra firme.

Águas claras diluam, dissipem toda a dor, escorram as minhas memórias em fortes tempestades.

Conservem parada a superfície do lago em que me transformei, agora gelado e vazio. Permitam que todas as histórias depositem-se no leito mais turvo e profundo, na parte inóspita do meu mundo.

Águas tranquilas, sejam as únicas testemunhas do sepulcro que minha vida abraçou. Levem com as correntezas os pedaços arrancados do meu peito, as gotas que me ardem nos olhos, o sangue que me amarga a boca e me queima as veias.


Afoguem meu corpo cansado, misturem minha matéria ao sal dos tempos e me envolvam de lírios os cabelos, que agora deixo soltos, misturados às tuas espumas.


Que apenas minha alma flutue, conduzida pelas tuas marés, evaporando-se, por fim, nas nuvens alaranjadas do teu por-do-sol.


domingo, 29 de janeiro de 2012

Canção de embalar

Inércia
Passou-se um ano
Passou-se um mês
A vida me acenou
E eu aqui...
Abro meu livro
ajeito-me ao leito
viajo nas nuvens
que as palavras
me trazem.
E vejo lugares
onde nunca andarei
encontro pessoas
de quem nada sei.
Passou-se um verão
Passou-se a manhã
A vida me sorriu
E eu aqui...
Sentada à mesa
bebendo minha água
esquecendo-me de tudo
que eu ia fazer.
E viajo nas nuvens
que as lembranças
me trazem
e escrevo poemas
que nunca ofertarei.
Passou-se o tempo
Passou-se a razão
A vida me soltou
E eu aqui...
Fecho meus olhos
ajeito-me ao leito
viajo nas nuvens
que as lembranças
me trazem
e espero quieta
pelo último acorde
que esta noite
entonarei.

Canção de embalar

Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será p'ra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor

Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme qu'inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer

sábado, 28 de janeiro de 2012

Paraíso

Que mundo é este tão belo, tão amplo, tão verde? Que mundo é este tão repleto de gente que vem e vai? Que mundo é este, meu Deus, em que me puseste desde cedo a trabalhar, a sofrer e a desfrutar? Que mundo é este, meus caros, que não o quero abandonar?
É um mundo de guerras, mas perfeito para morar.
É um mundo de luzes e sons,
um mundo vasto de andar,
que cabe no calibre do olhar.
O mundo em que vivo,
meu paraíso particular.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Resíduos


Então, chore.
Permita-se dar vazão às suas represas.
Quem sufoca um pranto engole copos de areia,
enterra-se por dentro.
Deixe ir embora o desgosto, a saudade, a lembrança;
dê adeus ao desencanto, aos planos que não deram certo;
chore as tristezas, as perdas.
Remova os resíduos que lhe entopem as artérias.
Então, chore.
Um choro silencioso, simples, como só os fortes sabem chorar.
Os fracos preferem bradar sua dor, sem nunca livrarem-se dela.
Não caia na tentação de sentir pena de si.
É tão inútil autopiedar-se...
Remova em cada gota, em cada soluço,
o que lhe é desnecessário.
Cure-se, cuide-se.
E não rotule culpados,
e não transfira amarguras.
Apenas chore.